Artífices Cuiabanos

Fotos e texto: Luzo Reis

Publicado originalmente em 03/09/2020 na revista de Antropologia visual Fotocronografias

Série fotográfica realizada no ano de 2018 traz imagens de trabalhadores manuais (artífices) em seus locais de trabalho no centro histórico de Cuiabá, Mato Grosso. No texto, uma reflexão sobre as possibilidades do desprestígio desses profissionais no mundo contemporâneo, sobretudo no Brasil, comentários sobre obras fotográficas acerca desse tema e como situo meu trabalho nesse escopo.

Mestre Dejair da Silva, Artíifice da costura de artigos de couro da rua Campo Grande

Essa série de imagens é fruto de um fascínio que as pequenas oficinas de artífices me despertam quando passo pelas ruas do centro da minha cidade: Cuiabá, Mato Grosso. Ourives, Sapateiros, Costureiras(os), Alfaiates, entre outros profissionais cuja atividade remonta a tempos pré-industriais onde a habilidade manual na confecção de roupas, acessórios e utensílios diversos compunham boa parte das ocupações existentes. Seu ethos próprio com uma “rígida hierarquia social, constituída por mestres, artífices e aprendizes”, além de “segredos (mistérios) transmitidos oralmente e na prática cotidiana, de geração em geração”, constituía uma verdadeira “cultura dos ofícios”, conforme argumenta Borges (2011, p. 489). Embora já bastante diluída no mundo atual, aspectos dessa cultura permanecem nessas pequenas lojas dos centros urbanos e sua resiliência e contemporaneidade são as forças motrizes de nosso ensaio. 

 

É importante notar que hoje a figura do artífice goza de pouco prestígio social se comparado a tempos em que a cultura dos ofícios era fundamental à estrutura social, como no período pré-industrial. Ressaltamos dois motivos para isso: primeiro, a ascensão da cultura industrial e a consequente redução da demanda por esses profissionais; em segundo lugar, a separação entre artífices e artistas desde o surgimento da concepção moderna deste último no Renascimento, conforme explica Sennett (2009). O artista passou a ser reconhecido por uma obra carregada de expressão subjetiva e de originalidade contrapondo-se ao artífice, um fabricante trivial. Foi se fortalecendo, portanto, a separação entre um trabalho manual menos prestigiado, as ditas artes mecânicas (artífices) de um trabalho em tese mais criativo, as ditas artes liberais (artistas e intelectuais). No Brasil, contudo, essa distinção e a própria cultura dos ofícios se deu sob outras bases: os privilégios e violências presentes em nossa história escravocrata.

Mestre ourives Sebastião Tadeu

Mestre alfaiate Sílvio Soares

É o que aponta Lysie Reis (2012). No período Colonial, as corporações de ofício presentes nas cidades brasileiras eram instituições destinadas a organizar as atividades das oficinas urbanas compostas por cidadãos brancos, em geral portugueses e seus descendentes. Leis municipais (as chamadas “posturas”) proibiam que escravizados atuassem em oficinas estabelecendo os ofícios como ocupações de homens brancos. 

 

A partir do século XIX isso mudou. Com o Império e o fim do sistema de corporações, as artes mecânicas começam a ser cada vez mais realizadas pela mão de obra negra que supre a demanda expansionista das cidades. Os brancos, com maiores oportunidades, desejam formar filhos doutores, distanciando-os dos ofícios manuais. É, portanto, o preconceito racial o fator decisivo para a atribuição de um valor negativo ao trabalho do artífice no Brasil a partir do XIX. 

 

Contudo, se a cor da pele desempenhou um papel importante para entendermos a desvalorização da cultura dos ofícios no Brasil, é salutar observar o contrário: como o ofício manual foi importante para os escravizados. É essa a tese de Reis (Ibidem). A autora argumenta que foi através do ofício que muitos escravizados conquistaram autonomia, posses e mesmo liberdade. Aprender um ofício era uma forma do cativo alcançar alguma mobilidade dentro do sistema. De certa forma, esse aspecto permaneceu depois da abolição da escravidão e mesmo hoje a prática do ofício traz em si a promessa de autonomia não apenas a descendentes de escravizados, mas às classes populares de modo geral. Praticamente todos os artífices dessa série destacaram que embora não ganhem muito dinheiro, “fome a gente não passa”, como afirmou um dos retratados. Além disso, destacaram orgulhosos a autonomia que possuem em organizar suas rotinas e seu negócio. 

Mestre ourives Antônio

Tal orgulho da profissão, das conquistas e da autonomia proporcionada pelo ofício certamente não foi o foco das lentes de pioneiros da fotografia brasileira como Christiano Junior (1832–1902) que com sua série “tipos de pretos”, anunciada em 1866 no Almanaque Laemmert, retratou trabalhadores negros simulando seus ofícios[1]. Fabricantes de cestos, de móveis, barbeiros e outros foram registrados com o mesmo olhar pitoresco de boa parte da fotografia antropológica do século XIX, ou seja, a partir de uma mirada distante que objetificava o outro na composição de uma aparente neutralidade documental. Outros trabalhos, como os de Vincenzo Pastore[2] (1865–1918) no Brasil e Eugène Atget[3] (1857–1927) na França, realizados em meio às transformações que a industrialização impunha às cidades, parecem preocupados em guardar à posteridade um registro da cultura dos ofícios que imaginava-se prestes a desaparecer no crepúsculo daquele século. Uma celebração do brio do artífice vai aparecer de forma contundente pelo olhar de August Sander (1876–1964) em sua obra Face of our times (1929) que reúne retratos de artífices e outros trabalhadores em poses altivas no começo de século XX. 

 

Acredito que minha pequena série dialoga com esses trabalhos na medida em que traz um pouco da admiração com que vejo essas profissões e apresenta, em pleno século XXI, esses trabalhadores orgulhosos de seus ofícios ancestrais que há tempos proporcionam autonomia e realização a quem a eles se dedica. Tal orgulho, contudo, vai além da sobrevivência e da autonomia. Há nos ofícios manuais o alcance de uma satisfação que persiste não obstante às transformações nos modos de produção, preconceitos e outros fatores que volta e meia os desprestigiam. Tais trabalhadores conseguem encontrar “as recompensas emocionais oferecidas pela habilidade artesanal” que em um nível mais profundo as “ligam à realidade tangível” e as fazem “orgulhar-se do seu trabalho” (Sennet, 2009, p. 31). Há ai uma dupla satisfação: dos mestres artistas e dos clientes em torno de cada objeto criado ou restaurado.

*Confira mais imagens deste ensaio na galeria acima

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1- Para mais informações sobre essa e outras obras de Christiano Junior consultar seu acervo na Brasiliana Fotográfica. Disponível em

<http://brasilianafotografica.bn.br/?tag=christiano-junior>. Acesso em: 18/08/2020.


2 - Para mais informações sobre essa e outras obras de Vincenzo Pastore consultar seu acervo na Brasiliana Fotográfica. Disponível em

<http://brasilianafotografica.bn.br/?tag=vincenzo-pastore>. Acesso em: 18/08/2020.


3 - Algumas imagens da série Les petits métiers de Eugène Atget podem ser acessadas em: <http://classes.bnf.fr/atget/pistes/11.htm>.

Acesso em: 18/08/2020.

Referências


BORGES, Maria Eliza Linhares. Cultura dos ofícios: patrimônio cultural, história e memória. Varia Historia, Belo Horizonte, vol. 27, nº 46: p.481–
508, jul/dez 2011

 

BRASILIANA FOTOGRÁFICA. Disponível em: <http://brasilianafotografica.bn.br/>. Acesso em: 18/08/2020
 

REIS, Lysie. A liberdade que veio do ofício: práticas sociais e cultura dos artífices na Bahia do século XIX. Salvador: EDUFBA, 2012.
 

SANDER, August. (1929). Face of our time. Munique: Schirmer / Mosel: 1995.
 

SENNETT, Richard. O Artífice. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2009.

© Luzo Reis Fotografia.

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Mestre alfaiate Sílvio Soares